BACH,
O QUINTO EVANGELISTA
Celso
Brant
INTRODUÇÃO
A
música de Bach não é produto de um homem nem a
obra de uma geração, mas o resultado de longo trabalho
em comum. Alguns séculos de polifonia colocaram em suas mãos
uma linguagem, um estilo e uma compreensão do mundo. Com esses
elementos, já trabalhados por grandes e nobres espíritos,
a sua missão ficou facilitada e não lhe foi difícil
dar o melhor de si ao mundo. Fê-lo com a simplicidade e a humildade
com que as árvores oferecem os seus frutos e os pássaros
enriquecem a paisagem do amanhecer com os seus cantos. Teve mestres,
é certo; mas entre o que os professores lhe ensinaram e o que
nos ensinou a todos nós, seus alunos, há uma diferença
maior que a existente entre a luz da vela e a do sol. Bach, como um
demiurgo, tirou o seu mundo de si mesmo. O seu poder de criação
era tal, que se diria ter nele se refugiado o “fiat” divino
para poder ampliar as fronteiras do mundo.
Eisenach
foi, bem a propósito, o seu berço natal. Ali, no castelo
de Wartburg, algum tempo antes, Lutero havia se recolhido para traçar
os planos da Reforma. Em tudo ainda sentia a lembrança de Santa
Isabel, cuja virtude era, principalmente, um exemplo de amor à
humanidade, pobre, infeliz e pecadora... O mesmo espírito que
presidiu à Reforma foi o que deu vida e força à
sua obra: a paixão pelo Cristianismo na pureza primitiva. Só
quando o espírito de uma época se impregna de tal forma
de um ideal que passa a tirar dele a sua seiva e sua vida, é
que se torna possível o aparecimento de grandes obras de arte.
Cria-se, assim, ao lado de uma linguagem comum, um mundo de anseios
a serem expressados, definidos. O grande destino histórico de
Bach foi oferecer-nos uma versão musical do Cristianismo. Os
pintores do Renascimento, os seus escultores e arquitetos, cuidaram
de fixar o espírito cristão em linhas, cores e volumes.
Bach transformou o Cristianismo em som. E essa versão é,
sem dúvida, a mais fiel, a mais pura e a mais profunda. Há,
entre a música e a religião, um parentesco íntimo.
Em ambas o que vale é o que não se vê, o real é
o que está acima dos nossos sentidos. O reino da religião
não é o mundo físico: seu domínio começa
justamente onde termina nossa capacidade de ver, de compreender e de
sentir. A religião é uma linguagem além das palavras,
uma ponte que nos liga ao mundo que nossos pés não podem
atingir, mas onde a nossa alma se sente como em sua própria pátria.
Música e religião representam um esforço no sentido
do homem libertar-se do frio e imutável silencio que os cerca,
de entrar em entendimento com os fantasmas que o rodeiam.
A
música, como toda linguagem, é uma criação
coletiva, uma convenção geralmente aceita. Onde cada qual
inventa sua linguagem, ninguém se entende. Há sempre uma
Torre de Babel no fim de toda cultura: o povo que deixa de ter uma linguagem
o comum, deixa de ter, também, um mesmo destino. O Cristianismo
foi a grande paixão do tempo de Bach. Ele é protestante
no exato sentido de Lutero: o seu desejo era o retorno a verdadeira
doutrina de Cristo, isenta das adaptações e das interpretações
dos padres. A sua música fixa e exalta de tal forma esse sentimento
que dá a impressão de uma longa prece, que sobe aos Céus
e vai até os pés de Deus. A linguagem de Bach alcançou
uma significação universal porque é a expressão
do anseio e da esperança do imutável coração
humano. Não apenas as suas energias, mas todas as forças
espirituais do seu tempo se reuniram em torno da criação
do seu estilo – esse majestoso e imponente barroco, tão
propício à fixação das altas e luminosas
visões do espírito. Foi nesse estilo, no estilo de suas
cantatas, que o Aleijadinho plasmou, nas nossas igrejas, a mensagem
mais alta da sua sensibilidade, inspirada no mesmo espírito cristão,
feito de compreensão e bondade. O barroco não é
uma linguagem para as idéias comuns, para a descolorida existência
de cada dia. Não é um estilo para a construção
de choupanas, mas de palácios e catedrais. A sua base é
a valorização do espírito, do conteúdo.
A idéia deve ser tão densa, tão violentamente presente,
que força a matéria e a subjuga. As estátuas barrocas
são ta grávidas de espírito que chega a curvar-se
ao seu peso. Os padres de Congonhas do Campo que se queixam de que os
fiéis não podiam rezar diante dos Profetas do Aleijadinho,
pois o seu altar ameaçador lhes conturbava a alma, nela derramando
a semente do temor. E os afrescos de Miguel Ângelo na Capela Sixtina
tiravam àquele recanto, segundo alguns padres, acolhedor, pois
perturbava mesmo os espíritos mais bem formados. Também
as cantatas de Bach nos arrastam para um mundo de estranhas, majestosas
e fantásticas visões. Bach levou o estilo barroco às
ultimas conseqüências. A sua polifonia é tão
intrincada, a floresta de sua música é tão densa,
que os próprios contemporâneos não chegaram a perceber
sua selvagem beleza. Ele é tão claro e ardente quanto
o sol, que ninguém consegue fixar a olho descoberto. Foi necessário
que a névoa do tempo se interpusesse entre ele e nós para
podemos contemplar o seu fulgurante esplendor. Como o de Miguel Ângelo,
o barroco de Bach é a vida em plenitude, a vida na sua impetuosidade
de anseios, de beleza, de miséria e de infinita beleza. Não
é uma arte para receio, mas para o trabalho, o duro do trabalho
do espírito, uma convocação de todas as forças
interiores. Bach sentiu a música como religião, como larga
porta aberta para o infinito, através da qual é dada ao
homem, para consolar-se de sua miséria e das suas fraquezas,
comunicar-se com as forças superiores, o mundo dos seus anseios,
a pátria das suas íntimas esperanças.
A
música nada afirma e nada nega. Como a terra ela é fria,
mas constitui a fonte de toda a vida. A Natureza, que a inventou, criou-a
à semelhança das flores e das altas nuvens que passeiam
pelo céu, por sobre os altos cumes. Na sua mudez ela fala mais
do que as palavras, diz melhor do que a lágrima e o sorriso.
É ouvindo uma cantata de Bach que somos tocados pela compreensão
de nossa presença no mundo e do sentido do nosso destino. Fomos
feitos, como os pássaros, para alegrar a perene festa da vida
e, como as flores, para enfeitar os berços e os túmulos.
A nossa missão é cantar, como os regatos, a doce melodia
interior e refletir, o mistério lado de nossa alma, a longínqua
e solitária luz das estrelas. A música de Bach é
uma versão universalizada do Cristianismo: um cristianismo para
todos os homens, mesmo os que não crêem. O seu mais alto
desejo foi chegar a Deus. E conseguiu esse intento libertando-se de
toda contingência humana. No fim seremos o que fomos no primeiro
dia. Esquecido das palavras e desprezando o ensinamento dos mestres,
Bach buscou traduzir em música o sentimento do mundo. E o fez
com tanta força e sinceridade, que é, ainda hoje, através
dessa sua milagrosa escada que podemos chegar ao Céu e falar
com Deus.
Nada
nos dá uma idéia mais verdadeira do destino humano que
a música. O seu denso mistério também é
o nosso; o seu mundo de sugestões é o mesmo que existe
em nossa alma; a sua espantosa beleza é a que se abre aos nossos
olhos como uma visão; o seu encantamento é a mesma sedução
que nos prende, como folhas batidas pela fúria da tempestade
à frágil haste da vida.
Não
se pode dizer que Bach foi o maior dos músicos, porque não
há fita métrica para medir o gênio. E como as árvores,
os homens devem ser avaliados, não pela sua aparência,
mas pelas raízes que tem sobre a terra. Essas raízes são
o sustentáculo contra o vendaval do tempo, que tudo leva de roldão.
Nesse sentido Bach dispõe de uma situação privilegiada.
A sua fortaleza é uma glória inexpugnável. Não
é que não tenha defeitos. Como todo artista barroco, Bach
é, muitas vezes, difícil, intrincado e obscuro. A críticas
que, nesse sentido, lhe fez Scheibe, seu contemporâneo, são
precedentes, apesar de exageradas. Já no fim da vida Bach assistiu
a vitória do estilo que desbancara o seu, e de que havia sido
a mais alta e nobre expressão, baseado nos recursos do contraponto
e da fuga, e a cujos cultores se referia ironicamente Telemann, vendo
neles “velhos que contraponteiam indefinidamente, mas que são
desprovidos de capacidade de invenção e escrevem a quinze
ou vinte vozes obrigadas, e em que o próprio Diógenes,
com sua lanterna, não encontraria uma gota de melodia.”
Bach
é denso e impenetrável como uma floresta tropical. Os
que, no entanto se aventuram a enfrentar os perigos dessa selva, descobrem
nos eu interior maravilhosas estradas, calçadas de pedrarias
raras e atapetadas de flores, que nos induzem a distantes e misteriosos
países.
Os
evangelistas procuraram, através de palavras, trazer até
nos a lição de Cristo. Bach compreendeu o quão
imperfeitamente foi cumprida essa missão. O espírito do
Filho do Homem foi tão torcido, tão desvirtuado, traduzido
de forma tão incompleta que, ao invés de semear a paz,
a eles trouxe mais discórdias, mais desavenças e ódios
maiores. Dispo-se, então, o compositor, a nos dar uma outra versão
do ensinamento de Cristo. Na sua obra Jesus surge na sublime apoteose
da pureza, como um igual dos homens, capaz de sentir as dores e alegrias,
e, sobretudo, de a todos perdoar os pecados e as fraquezas, que são
contingências de nossa natureza e símbolos do nosso nada.
Desde o “Oratório de Natal” até as “Paixões”,
Bach acompanha toda vida de Jesus. Nunca o espírito de Cristo
foi tão bem fixado quanto na música. Esta se apresenta
tão rica de conteúdo humano, de bondade e de perdão
que dá a impressão de uma longa, iluminada e infinita
benção que cai sobre todos os homens, indiferentes às
suas crenças e aos seus preconceitos. A música é
a linguagem absoluta. Ouvindo as “Paixões” de Bach,
percebemos que o sacrifício de Jesus não é senão
o símbolo da grande tragédia, de que somos todos mártires
obscuros e inconscientes. A vida humana só tem sentido quando
é a concretização de uma idéia. Só
há verdadeira grandeza no destino que se realiza. A lição
essencial de Cristo consiste na valorização do espírito,
sem cuja presença nada tem sentido. Bach leva essas premissas
às últimas conseqüências. A sua música
é o Espírito Santo que desceu à terra e passou
a habitar entre nós.
E
através de Bach que entendemos o verdadeiro segredo da música.
O homem é, no fundo, um animal irracional. A razão é,
em nós, apenas a superfície. No nosso íntimo, conservamo-nos
tão selvagens quanto os animais bravios, rudes como as cachoeiras
que se lançam furiosa contra as abruptas pedras, e laboriosos
como as sementes que se transformam em folhas, flores e frutos. Guardamos,
no nosso mundo interior, ressonâncias vagas de quando morávamos
no fundo do mar; do tempo em que perscrutávamos a selva e conhecíamos
o seus avisos; das lutas pelo domínio da terra e de suas misteriosas
forças. A música é uma evocação desses
tempos em que não existiam nem palavras, nem razão. Uma
linguagem tão nossa, tão familiar e acolhedora como um
abraço de mãe. Sendo um produto do inconsciente, a ele
se dirigindo, a música é intuitiva, independendo de aprendizado.
E aquele que não tiver, no labirinto de sua alma, a fonte criadora.
Inútil buscará o sucedâneo. A capacidade criadora
nada tem a ver com a inteligência. Ela é uma ruminação
interior, em cuja elaboração a nossa participação
consciente é nula. A mais alta inteligência é capaz
de produzir a menor obra de arte. Mas ao artista não compete
apenas criar, mas fixar a criação. Bach compreendeu, como
nenhum outro músico, a importância da técnica, que
coloca o artista em situação de aproveitar, em plenitude,
suas inspirações. Para ele, todo artista deve ser, um
artesão, um profundo conhecedor do seu “métier”,
cuja técnica precisa dominar completamente. Essa técnica
deve ser adotada ao que tem de fixar. Nesse sentido, deu-nos impressionante
lição de coragem ao desprezar as regras tradicionais que
lhe impediram a livre expressões das idéias. A sua harmonia
tem mais flexibilidade que a do seus contemporâneos adotando-se
melhor ao seus fins. “Aparentemente” – nota Forkel
o primeiro do seus biógrafos – “infringia com isso
todas as regras tradicionais e tidas por sagradas em seu tempo, mas
não as infringia de fato, pois realizava perfeitamente a finalidade
dessas regras, que só podem ter por objeto a pureza da harmonia
e da melodia, ou seja, das sucessivas e coexistente eufonias, embora
o fizesse por caminhos insólitos”. As liberdades técnicas
não eram ,aliás, raras na família Bach. Muito antes
de Johann Sebastian, Johann Cristoph, organista da corte do município
de Eisenach, escandalizou seus contemporâneos ao fazer uso, num
motete de sua autoria, da sexta aumentada. As liberdades técnicas
de Bach lhe trouxeram muitos dissabores. A 21 de fevereiro de 1706,
por exemplo, quando era organista da Neue-Kirche, em Arnstadt, recebeu
do Consistório séria advertência porque, até
então, “havia feito, nos corais, muitas variações
estranhas, misturando muitos tons alheios, tanto que a comunidade ficou
confundida”. “Para o futuro – ordenava o consistório
– deve se quiser introduzir um tonum peregrinum – permanecer
no mesmo e não cair imediatamente em outra coisa, nem, como até
agora tem feito, tocar um tonum contrarium”. O tonum peregrinum
é, como se advinha, a modulação, e o tonum contrarium,
a trova brusca de tonalidade. Também em Mülhlausen, Bach
encontrou tal resistência à sua música que teve
de deixar o posto de organista, que ocupou durante algum tempo. Justificando
a deliberação de abandonar o cargo, confessou humildemente:
“Tive sempre o pensamento de fazer progredir a música religiosa,
para maior glória de Deus, mas não o tenho podido conseguir
até o presente sem oposição”.
Durante
toda a vida, Bach lutou contra essa incompreensão. Que acabou
por amargar os seus dias, mas jamais lhe roubou a confiança em
si mesmo.
O
Barroco não se presta às confissões íntimas.
O seu ambiente não é o das confissões, mas o dos
feitos grandiosos e sublimes. Bach é um artista impessoal. Pouco
ficamos sabendo dele através de sua obra. Ao contrário
do românticos, que sempre falaram na primeira pessoa, usa, quando
muito, a primeira do plural. Era a alma do seu tempo e do seu povo que
se expressava na sua voz. Nunca ambicionou honrarias e glórias.
Foi simples como todo aquele que tem real consciência da sua grandeza.
Miguel Ângelo apenas assinou um dos seus trabalhos: a Pietà.
Sentia que toda obra de arte é um produto da coletividade, do
grupo humano, como a linguagem e os caminhos. Como o seu povo, Bach
ambicionou servir a Deus. E foi esse o desejo que conduziu a sua música,
por estradas iluminadas à mais sublime pureza. No “Orgelbüchlein”,
em que reúne uma série de trabalhos compostos em Weimar,
escreveu essa epígrafe:
“Para maior glória do Altíssimo
e melhor instrução do próximo”
E
aos seus alunos da Escola de São Tomás ditou essa explicação
do baixo cifrado: “O baixo cifrado é o mais perfeito fundamento
da música, que a esquerda toca as notas indicadas, tomando a
direita as consonâncias e dissonâncias, a fim de que surja
uma agradável harmonia para a glória do Senhor e o prazer
permitido à alma. Como a de toda música,a finalidade do
baixo cifrado não deve ser outra senão a glória
de Deus e a recreação da alma.
A
música de Bach valorizava e purificava todos os temas. Em suas
mãos os motivos mais comuns adquiriam brilho e o esplendor. Transformou,
seguindo o exemplo de Lutero, canções licenciosas e picantes
em corais piedosos, como veremos páginas adiante. Porém,
mais extraordinário ainda é o fato de ter utilizado o
tema da figura simbólica da sensualidade de “Hércules
na Encruzilhada” na “Canção de Ninar”,
com a qual a Virgem Maria, no “Oratório de Natal”,
adormece o Menino Jesus. Ouvindo o “Oratório de Natal”,
longe estamos de imaginar que se trata de simples colcha de retalhos:
suas árias e coros, com apenas oito exceções, foram
tirada das cantatas profanas “Lasst und sorgen”, “Tönet,
ihr Pauken” e “Preise dein Glücke”, as quais,
por sua vez, provavelmente, não foram escritas para libretos
seculares. De tal maneira a música de Bach fixa a alegria da
terra – dos homens simples e das almas puras, pela vinda do Salvador,
que esse oratório continua ser o mais alto monumento musical
sobre a Natividade. A música atinge, nele, a plenitude de humanidade
e pureza.
A
arte tem, sobre as demais atividades humanas, a vantagem de estar liberta
das contingências do tempo. Um estudante de astronomia pode hoje
refutar Aristóteles; muito da ciência de Platão
faz rir, agora, ao aluno mais medíocre; um neófito de
medicina muito teria a ensinar a Hipócrates. No terreno da Música,
tudo se passa diferentemente. Há, sim, um torvelinho de escolas
e estilos, de linguagens e expressões. Mas uma obra, como a de
Bach, que expressa uma concepção de mundo e simboliza
o sentido de uma época, jamais será superada. As gerações
hão de reverenciá-las pelos séculos afora, como
uma das mais altas expressões do espírito humano, que
nela se fez música para viver além do tempo e levar a
Deus a gratidão da humanidade, infinitamente valiosa, da vida.